Lançamento . Renato Negrão & feira

kza1 e Belle Époque Livros e Discos convidam para o lançamento de

Odisseia vácuo
de Renato Negrão

+feira na rua, com presença de

Linaibah Linaibah
Nano Editora
Livraria A Nina
DODO Publicações

& +falas de poetas

sábado, 12 de maio, às 18 horas
rua Soares 50, Méier

Odisseia Vácuo evoca, no seu título, a obra metacanônica de Homero e, na mancha gráfica, uma das obras fundadoras da poética do séc. XX – Un coup de dés de Stéphane Mallarmé. O poema retoma o cânone enquanto pura forma narrativa, subvertendo o seu papel de “quadro de honras”.

O formato artesanal propicia uma divulgação também personalizada, fazendo o livro chegar aos leitores em sua maior parte via correios e normalmente não é vendido em livrarias. “Cada livro que lanço me surpreende em um aspecto, Odisseia Vácuo tem despertado interesse entre grupos teatrais que tem investigado suas possibilidades dramatúrgicas. No caso do meu livro anterior, Vicente Viciado – que também estará a venda – o interesse maior surgiu após diversas postagens elogiosas na internet em vários estados do país”.

.Renato Negrão (1968) é um poeta, compositor, artista visual e professor. Publicou os livros No Calo (1996), Dragões do Paraíso (1997, com Daniel Costa), Os Dois Primeiros e um Vago Lote (2004), Vicente Viciado (2012) e Odisseia Vácuo (2017). Produziu: Tributo a Paulo Leminski (1999) e Reciclo Geral – Mostra de Composições inéditas(2002). Ministra diversos cursos que tem como eixo as relações entre palavra e imagem, valendo-se de aspectos da linguagem poética e estratégias da arte contemporânea como capital pedagógico para a educação.

 

SOBRE O LIVRO

Odisseia Vácuo, de Renato Negrão, nos leva de surpresa em surpresa, por um vasto repertório que joga com a diversidade desconcertante dos modos de fazer e de pensar a poesia. Com inventivo humor, essa antiepopeia dialoga com discursos críticos vários que tentam estabelecer definições e funções da poesia em nosso tempo. Seu livro-poema encena, com a cumplicidade do/a leitor/a, os limites e possibilidades de apreensão desse objeto resistente às classificações.

Acompanhar essa odisseia, a cada verso-desafio, é aceitar o convite para desaprender, de novo e sempre, e poder “ver com olhos livres” as lacunas abertas no corpo do poema, na teia de um longo discurso (auto) crítico. Entre o vácuo e a totalidade, o movimento, a leveza, a multiplicidade, a poesia.

Susana Souto

 

Iago Passos entrevista Renato Negrão

 

  • Como surgiu o poema?

Surgiu durante um surto criativo, numa tarde. Estava tentando uma disciplina de escrita diária, até que numa tarde o texto saiu. Experimentei processos de colagens de textos em que fiz alterações e me dediquei a trabalhar com os silêncios e as lacunas no branco da página como elemento de significação.

 

  • Como surgiu o projeto gráfico?

Tinha o desejo de trabalhar com alguém com quem nunca houvesse trabalhado antes. Tive conversas com o Bruno Azevedo, da Pitomba Livros e Discos, em São Luiz (MA). Mas tentei também repetir a parceria com Júlio Abreu, meu parceiro e amigo de muitos e que conhece a fundo meu trabalho, responsável pelo projeto gráfico do meu livro anterior, Vicente Viciado, que me deixou muito satisfeito.  Terminei por me aproximar do Matheus, da Ed. 4:25, que além de ser um designer ousado e primoroso, também é ótimo escritor e sabe valorizar o texto. Ficamos entre seis a oito meses discutindo o projeto até chegar ao formato.

 

  • O texto da epígrafe me parece ser um aviso, qual pedido exorbitante é concedido ao leitor do seu livro?

 O poeta português Alberto Pimenta é um dos que mais me identifico. Pela ironia, irreverência, sensibilidade, sarcasmo e experimentalismo. O trecho da epígrafe é do longo poema current issues in comunnity work*. Não há garantia a ninguém que resolva se envolver intensamente em uma aventura artística, a ambigüidade do sucesso, do fracasso, da inocuidade… E todos esses projetos que inquietam e nos levam à ansiedade. Nesse momento penso em Lygia Clark, Glauber Rocha, Jas Ban Ader e tantos outros… Talvez ao leitor eu tenha tentado fazê-lo experimentar, mesmo de maneira leve, um pouco dessa insegurança, odisseia vácuo. Nesse sentido, não só a epígrafe, mas também o projeto gráfico deixa experimentar essa sensação. Grosso modo, a epígrafe diz, à maneira dos livros de auto-ajuda algo como cuidado como que pedes que você pode alcançar, risos.

Pimenta, Alberto. A encomenda do silêncio. Obradek Editorial/2004.

 

  • Em certos trechos, é mais claro o deboche a um certo progressismo canônico, da história de alguma ciência – impossível saber qual, pois há lacunas sempre que o texto ameaça trazer alguma especificação – as lacunas do texto poderíam ser preenchidas por nomes, ou melhor, substantivos. Reunindo essas impressões à “escultura gráfica” que é o livro – a dobra que contém o seu nome, e do outro lado o título do livro, junto ao corte circular na letra “O”, presente também na união da capa com a contracapa, sua circularidade, seu mistério em definir um começo e um fim – tudo isso me sugere uma leitura tentada a criar relações entre o objeto e o texto. Como você vê essa transa semiótica entre o objeto e a palavra?

 Sinto atração pela afronta juvenil mesmo que inconseqüente porque de onde venho, a norma era – e ainda é – o silenciamento. E talvez essa tenha sido a única saída, o grito de revolta. E esse deboche aparece então em algumas falas e poemas que publico como uma irreverência.  Pode-se ler esse corte circular que une meu nome ao título do livro literalmente como um vácuo e/ou como uma odisseia.  Ao pé da letra, pode-se ler como o buraco em que nós negros historicamente nos encontramos. Voando mais e ao mesmo tempo, penso na cosmovisão africana, a circularidade, por exemplo, que tem importância vital na cultura que herdamos, que nos chega através da ludicidade do jogo, nas atividades espirituais -por que não permeando nosso fazer artístico? – e da questão cíclica da vida, essa odisseia. O livro também, de certa forma, fala disso. Não se sabe muito bem por onde entrar ou por onde sair. Essa sacada do “O” foi ponto para o Matheus, que é um leitor refinado. Sendo ele preto como eu, deve ter siso obra então de alguma ancestralidade afeita a campos e espaços.

 

  • Se o texto por um lado exclui substantivos, ou dados mais específicos, as principais informações sobre o livro – que o especificam – são impressas de tal modo a serem dignas de um poema concreto. Fale mais sobre os paratextos – principalmente, o título e seu nome – e como eles se tornam parte do livro poema.

A epígrafe e seu autor, os dados da edição, que são as datas e a numeração acabam aparecendo como um índice enigmático. Não há título e não há os nomes das editoras 4:25 e Palavra Imagem e também meu nome não aparece na capa. Aparece sim em contraposição dialógica entre renato/vácuo e negrão/odisseia já dentro do livro. A partir do significado do meu nome e sobrenome, Renato = renascido e Negrão = escuro, me permiti fabular, já que não conheço mais que muito superficialmente alguns dados da física, sobre as relações entre buraco negro e o vácuo quântico. Mas já me permitiram traçar um paralelo entre a aventura ínfima das partículas e dos astros e a aventura artística do signo lingüístico, de modo que esses assuntos também interessaram aos poetas concretos, sobretudo Haroldo de Campos em suas Galáxias. Mas talvez tudo isso não tenha sido mais que um lance de dados, risos.

 

  • Diferente de “Vicente viciado”, “Odisseia vácuo” é um projeto mais experimental, e com menos chaves de leitura. Você diria que são projetos totalmente diferentes, ou eles apresentam algo em comum?

Realmente há menos chaves de leitura, mas apresentam semelhanças de procedimentos. Nos dois livros utilizei alguns recursos de apropriação. O humor também é uma característica que permeia todos os meus livros. Das diferenças: Vicente é muito colorido na capa, odisseia é cinza e preto. A capa do Vicente sugere ao leitor que se trata de um livro de prosa e quando o leitor abre percebe que é um livro de poesia. Já o Odisseia oferece a idéia de que se trata de um livro de poesia e ao abrir o leitor se depara com um texto que a princípio parece ser prosa. Vicente Viciado foi realizado com uma tiragem bem significativa, 1500 exemplares em escala industrial, o Odisseia Vácuo é artesanal e tiragem pequena.